Baía dos Mercadores – Felicidade, bicicletas e design em Copenhaga

Baía dos Mercadores – Felicidade, bicicletas e design em Copenhaga

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Há já algum tempo que a personagem de Birgitte Nyborg, interpretada por Sidse Babett Knudsem, da série dinamarquesa Borgen se tinha fixado “under my skin”. Não só a personagem, mas também todo o ambiente que a série emanava. Queria ver de perto a maneira de viver dinamarquesa, bem como a tela de Copenhaga que fixava aquela poderosa intriga política e social.
Por outro lado, o universo dos contos de Hans Christian Andersen alimentou-me a imaginação em criança, e ainda hoje considero o seu imaginário muitíssimo inspirador.

Tudo indicava o mesmo caminho para norte. Tinha de ir conhecer a cidade.

Também o Luiz andava com uma crescente vontade de regressar à capital dinamarquesa, que tinha já visitado nos anos 80 quando era estudante em Estocolmo. Ia aí passar temporadas e fins-de-semana com os colegas de curso, em aventuras de jovem adulto. Estava na hora de regressar, desta feita com um novo olhar, com novos interesses, e sobretudo com a calma e tranquilidade que os “mais de cinquenta” possuem. Foi assim que se alimentou a ideia e a vontade de planear nova viagem e de voltarmos a deixar o lar em busca deste desassossego que nos alimenta: viajar.

Como sempre fazemos, iniciámos as preparações com as indispensáveis pesquisas online utilizando as ferramentas que o mundo virtual nos proporciona. O Luiz, mais dedicado ao “quanto”; eu, ao “onde”. Uma das prioridades do “onde” foi encontrar alojamento em local estratégico para uma estadia curta numa cidade que pede para ser descoberta pela força das pernas. Neste caso, a localização que considerámos mais adequada para nós foi a zona sudoeste de Copenhaga, tanto pela proximidade da estação de caminhos de ferro como pela localização em relação aos percursos a pé que desejávamos fazer. Além disso, é aí que começa o trajeto dos “Hop-on Hop-off”. Já falaremos do porquê deste transporte tão conectado com o turismo rápido (prêt-à-porter).

Depois de verificarmos várias vezes as melhores ofertas e promoções, fizemos as nossas reservas, que se vieram a revelar como as mais acertadas. Uma das nossas práticas habituais é reservarmos um quarto de hotel de valor médio. Depois, à chegada, podemos fazer um upgrade no quarto ou na alimentação, ou mesmo na possibilidade de acesso ao lounge e ou restaurantes. Isto permite que, na maioria das vezes, à chegada ao hotel– por um valor na maioria das vezes bastante razoável – consigamos aumentar a qualidade da nossa estadia, usufruindo de toda a experiência de uma forma bastante mais descontraída, confortável e, claro, com um toque de pequenos luxos que de outra forma seria impossível.

Mais uma vez, a escolha da companhia aérea recaiu sobre a TAP e, mais uma vez, a opção foi acertada. Um voo sem sobressaltos, a horas e tranquilo. Assim que desembarcámos no aeroporto de Kastrup, mais conhecido por aeroporto de Copenhaga, fomos surpreendidos pela arquitetura do espaço, e ainda mais pelo design do mobiliário, em particular o das cadeiras.

Percebemos imediatamente que, por certo, iríamos encontrar o design nórdico, neste caso dinamarquês, em todos os recantos por onde fôssemos passar. Esta sensação foi validada quase com precisão matemática, pois penso que não houve um único local que não tivesse sido alvo de um tratamento do ponto de vista da funcionalidade e da estética, os dois ingredientes básicos para um bom design.

Os bancos do aeroporto, os inúmeros jardins e parques, os edifícios, a decoração de lojas, cafés e restaurantes, o mobiliário público, tudo foi pensado com um propósito de harmonia e design.

Entre muitos outros factores, este é por certo um dos que faz com que usufruir desta cidade seja um prazer.

O primeiro dia foi dedicado a descobrir a cidade a pé. Ainda que tivéssemos um plano, o importante era sentir Copenhaga… e foi isso que fizemos. O trajeto até ao belíssimo hotel The Square foi muito fácil e tranquilo. Chegámos sem dificuldade viajando num comboio direto que liga o aeroporto ao centro da cidade. O nosso hotel situava-se muito perto da estação e ao lado do Tivoli World, um famoso parque de diversões local.

Aí, no centro, tivemos o nosso primeiro embate com a realidade, avassaladora, do número de bicicletas que circulam na capital. Na área metropolitana de Copenhaga habitam em permanência cerca de 2,7 milhões de pessoas. Se somarmos a estas mais 1,3 milhões de turistas (anuais), temos uma média de 3 milhões de habitantes. Segundo o último censo, de 2015, 50% destes 3 milhões utilizam a bicicleta como principal meio de transporte, e fazem-no diariamente! É uma realidade surpreendente para quem venha de um país do sul da Europa. Cerca de 63% dos deputados vão trabalhar de bicicleta, e alguns há que nem carro possuem. E nada disto aconteceu por acaso: foi antes um plano a longo prazo, muito bem delineado e executado.

A utilização da bicicleta para transporte diário em Copenhaga remonta a 1880 e a primeira ciclovia foi construída em 1910.

Mas foi após a grande crise do petróleo ao final dos anos 70 do século passado que a mudança se começou a tomar forma de movimento nacional.
Depois de começarmos a digerir a infinidade de bicicletas, começamos a sentir na pele a descontração que se vive nesta cidade. Não é por acaso que dizem que os dinamarqueses são os latinos da Escandinávia. Toda a forma de estar, de ser e de interagir é calma, amistosa e harmoniosa. A facilidade com que passam do idioma dinamarquês para o inglês é extraordinária. Não há por isso que ter qualquer receio da língua e da comunicação. Tudo é fácil e fluído!

E nessa fluidez começamos a sentir algo de quase único. Por todo o lado se ouvem risos de crianças, as vozes dos seus pais e se sente o seu bem-estar.  Na Escandinávia em geral e na Dinamarca em particular as políticas para a família colocadas em prática desde os anos 80, proporcionaram um babyboom. As licenças maternais ou paternais, são de igual duração, podendo ainda um dos pais, ou em alternância, prolongarem a licença de maternidade por mais 12 meses se assim o desejarem. Este facto juntamente com a baixíssima taxa de criminalidade, os altos salários, a política de habitação, a consciência social, ecológica e cultural que se foram impregnando na sociedade dinamarquesa fazem deste país um dos que mais alto chegam no ranking do bem-estar e dos níveis de felicidade.

A primeira coisa a visitar foi, pois claro, a menina de rabo de peixe, não a menina dos Açores da Fajã de Rabo de Peixe, mas a pequena e famosa Sereia de Copenhaga.

Não podemos dizer que tenha sido um highlight, mas também não foi uma desilusão completa. Como já estávamos à espera, visitada por terra, é uma pequena estátua de bronze colocada numa rocha, onde todas as centenas de turistas querem chegar, tocar e tirar uma foto com ela. No entanto se soubermos aguardar pacientemente uma aberta, conseguimos tirar aquela foto sem ninguém à volta, fazendo parecer que fomos os únicos naquele dia a fazer a visita. Dois dias depois tivemos a possibilidade de lá voltar, mas desta feita por mar, num passeio de barco que recomendamos vivamente.

Depois foi tempo de nos perdermos pelas ruas de Copenhaga e deixarmo-nos deslumbrar pela arquitetura, lojas, cafés e jardins.

Os jardins… fantásticos, cuidados com um detalhe nórdico que contempla a organização humana, e em doses iguais, a (des)ordem subjacente aos fractais do caos organizado da natureza. Também é notória a paz social e religiosa nesta capital. Foi com frequência que encontrámos igrejas e templos de cultos muito diferentes entre si, na mesma rua e mesmo frente a frente. Não é estranho encontrarmos uma igreja católica em frente de uma sinagoga, ou uma igreja presbiteriana. E assim, este conviver pacífico e o gosto pela ordem e tolerância, fez-nos perceber o porquê de esta ser uma das capitais com melhor ambiente social e humano e com um “grau de felicidade “per capita” muito acima da média europeia.

Como já vem sendo hábito e quase uma tradição, sempre que viajo para onde quer que seja, a chuva esteve presente. Logo no primeiro dia consultámos as previsões meteorológicas para os dias da nossa visita e já sabíamos que no segundo dia à tarde iria chover. Com o historial de viagens anteriores nem poderia ser de outra forma. Já pensei mesmo fazer artigos sobre como viajar com chuva.  Assim planeámos o nosso segundo dia com um pequeno passeio de manhã reservando a tarde para as visitas a monumentos e museus.

Começámos com um passeio pelos canais, absorvendo a vida quotidiana e a energia da cidade. Não estava particularmente frio, mas também não se poderia considerar um dia quente de primavera. Mas enquanto nós sentíamos a necessidade de colocar agasalhos, para os locais a temperatura dir-se-ia que era de verão.
Depois alguma disfarçada ansiedade, finalmente, dirigimo-nos para o parlamento. O que é hoje conhecido por Christiansborg foi inaugurado em 1928, depois de ao longo de vários séculos ter sofrido pelo menos três incêndios que o destruíram na totalidade. Sobre as ruínas do original Castelo de Absalão surge agora a casa dos três poderes dinamarqueses; o Judicial, o Executivo e o Parlamentar. É o único país da Europa onde estes três poderes coabitam no mesmo espaço. O espaço em si é pequeno, não é um edifício majestoso, longe disso, mas mais uma vez podemos perceber o valor que os dinamarqueses colocam no uso comedido e prático dos espaços e a importância que dão à funcionalidade.

Ainda imaginei ter um leve vislumbre da Birgitte Nyborg naqueles corredores, o que é sempre possível de acontecer quando somos fãs de uma série. Também no dia seguinte iria ter essa sensação.

Quando saímos da visita ao Christiansborg foi na hora exata em que a nossa amiga chuva se desprendeu dos céus, mas como a aguardávamos não nos apanhou desprevenidos e de pronto saltámos para um dos autocarros turísticos “Hop-on Hop-off”. Eu tinha prometido que iríamos chegar aqui.  Ora bem, esta opção é sobretudo estratégica, em situações como esta, ou então em cidades muito grandes em que temos de criar um percurso de visitas que seja mais do nosso interesse. Desta forma podermos ter uma quick tour da cidade, e ir marcando o que queremos mesmo ver, ao mesmo tempo que ficamos com uma vista geral da cidade e um pré reconhecimento feito.

Nota muito importante! Os dinamarqueses são apreciadores e conhecedores de café, por isso em qualquer esquina há um bom café com excelente líquido cafeínado. Mesmo no aeroporto o cheiro deste ouro negro era omnipresente.

 

Assim, depois de um almoço tardio num magnífico café, decidimos ir visitar a fábrica da Carlsberg, nos arredores.

 

Digamos que foi a experiência menos positiva de toda a viagem e mais não digo. Para compensar o dia acabou com mais um banho de locais e da sua alegria de viver, bem demonstrada por este cartaz que um condutor de autocarro tinha colocado no para brisas.

Visitas obrigatórias, que dão direito a falta injustificada são o Museu do Design Dinamarquês. O próprio espaço é uma ode ao design. Outra é a experiência o espectáculo sobre os contos de Hans Christian Andersen. Os contos que me acompanharam na minha meninice e de jovem adolescente, aqui contados em forma teatral e com a própria história do autor, são um must imperdível. O palácio real, imponente e com jardins maravilhosos. E ainda The Citadel, uma pequena ilha perto do porto de atraque dos cruzeiros que possui maravilhosos jardins de uma beleza extraordinária e que emanam uma calma arrebatadora.

Com estes banhos de cultura decidimos continuar pelas ruas das lojas de mobiliário e arquitetura de interiores e tenho de confessar que nada nos tinha preparado para o nível de valores praticados para estes objetos. Ainda assim se pensarmos que uma cerveja custa em média 7 a 10 euros, seria de esperar preços elevados para peças de design. Mas daí a estarmos preparados para uma cadeira de 32 mil euros…

Daí seguimos para o nosso passeio de barco pelos canais e porto de Copenhaga. Recomendo vivamente. A perspetiva é completamente diferente e a clareza com que temos acesso a um campo de visão completamente novo e diferente é uma experiência que é um valor seguro. A volta completa não é muito longa e passa pela ópera, um edifício de arquitetura magnífica, pela Sereia (e aí sim, temos uma vista bastante mais interessante do local e sem os atropelos para as fotografias) e também pelo complexo de apartamentos onde a personagem principal de Borgen vivia, um antigo complexo industrial agora recuperado e transformado em lofts todos envidraçados.

De salientar que todo plano de água e a zona portuária foram nos últimos dez anos intervencionados e estão agora completamente livres de indústria e de trânsito marítimo pesado. A intervenção foi também levada a cabo na água, com a recuperação de toda a fauna e flora originais, sendo neste momento o porto de capital com a água mais limpa do mundo.


Como não poderia deixar de ser, os dinamarqueses souberam tirar proveito deste melhoramento e fazem agora das águas de Copenhaga a sua praia privada. Aí tomam banho – durante todo o ano, sim é verdade – e, mesmo com a temperatura baixa que estava, havia bastantes pessoas a nadar. Aliás, aí está uma prova de como, de repente, me vi escoltada por dois sorridentes nadadores que tinham acabado de dar as suas braçadas.

 

Durante toda a nossa visita não tivemos uma única vez de trocar dinheiro – a moeda oficial é a coroa dinamarquesa – pois em todos os locais se pode pagar com cartão de crédito. Desde um simples café aos museus, restaurantes, táxis, tudo. Por isso, será bom e prático prever a utilização do cartão de crédito numa viagem a Copenhaga.

Esta cidade, porém, tem mais histórias para contar, fique atento aos próximos artigos.

 

 

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