Entrevista com Ana Marquilhas

1
939

Em Bali, Singapura.

Ana Marquilhas é a líder do projeto After50 e, como não podia deixar de ser, é uma Fifty. É natural de Luanda e desde muito cedo desenvolveu o gosto pelas viagens. É licenciada pelo Instituto Superior de Educação Física, mas foi no mundo empresarial (e do marketing em particular) que desenvolveu a maior parte do seu percurso profissional. Liderou vários projetos em empresas como a Ecotel e no grupo Havas Media, onde desempenhou vários cargos de direção, com destaque para o de Diretora Geral da Arena e da MPG. Hoje, como consultora independente, reencontrou nas viagens um modo de vida, acompanhada pelo seu marido, Luiz Quaresma; já percorreram mais de 52 países, o que a inspirou para a criação deste novo e ambicioso projeto.

Consegue identificar de onde vem e como se desenvolveu a sua paixão pelas viagens?
Sempre gostei de conhecer, de descobrir, de investigar. O meu percurso profissional reflete isso mesmo, pois tendo começado pela Educação Física, rapidamente passei para uma empresa que seria uma das primeiras em Portugal a lançar um sistema de medição de audiências em televisão. Depois de descobrir o que os telespetadores gostavam, depressa me interessei pelos consumidores e, claro, pelas marcas da sua preferência. Esse interesse levou-me para a área da publicidade, mais especificamente para as agências de meios, que eram ainda uma novidade em Portugal: foi nelas que acabei por centrar a maior parte da minha carreira. E sempre me apercebi de um paralelismo muito claro entre as variações nas preferências dos consumidores e aqueles contrastes entre hábitos e culturas que só são videntes para quem viaja entre muitos diferentes países: a atenção constante a esses contrastes tornou-se no meu modo de vida.

Depois de um percurso profissional tão longo e profícuo, numa área tão específica, o que a inspirou a criar o seu próprio negócio?
Efetivamente, entre os 40 e os 50 comecei a ter necessidade de me distribuir por atividades diferentes das que tinha desenvolvido até essa data. A partir dos 50, então, quase se tornou numa obrigação. O tempo é precioso e, ao fazer 50 anos, tomei consciência de que não podia esperar mais. Sendo assim, procurei encontrar algo novo que pudesse realizar e que fosse ao encontro daquilo que atualmente mais gosto de fazer: partilhar; e juntei-lhe algo que nunca perdi vontade de fazer: viajar, conhecer novos lugares, novas pessoas, novas experiências e, principalmente, criar tempo. Daí nasceu a ideia deste novo negócio, em que produzo um espaço de partilha e de escuta sobre o que as pessoas de 50 e mais anos sentem, querem, buscam, desfrutam.

O Torii é um portão tradicional japonês, ligado à tradição xintoísta que assinala a entrada ou proximidade de um santuário. Parque Fushimi Inari-taisha

Quanto tempo demorou e qual o processo de maturação desde a primeira ideia até chegar aos objectivos finais deste projeto?
Há já algum tempo, principalmente desde que eu comecei a ouvir repetidamente: “Ah…já tens 40… 41… 45… 50…” com “aquele” tom depreciativo. Depois, quando falava com amigas/os da mesma idade, parecia-me ouvir o mesmo eco de ressentimento: as pessoas sentem que o número de anos ofusca outras características suas: a sua idade é percebida como um estigma.

Proativamente, achei que haveria muito a realizar ao nível da mudança de mentalidades, o que passa também por mudar processos e formas de estar nos 50, alterando a respetiva imagem… Se não queremos que a sociedade encare a idade como determinante do que cada um é ou deve ser, temos de aprender, de escutar, e iniciar os passos que será necessário dar para modificar tal panorama. As diferenças que acontecem ao longo da nossa vida, tanto as físicas como as psicológicas, têm muito a ver com aquilo que nos foi proporcionado. No meu caso, as viagens desempenharam um papel muito fulcral. Através delas conheci outros mundos, valorizei o que tenho e acho que aprendi a respeitar o próximo. Existem, claro, diferenças quando ganhamos idade: umas simpáticas, outras nem tanto. Mas são essas diferenças que devemos partilhar para podermos aprender uns com os outros e assim vivermos a vida em pleno. Espero que este projeto ajude nesse sentido.

 

A paixão pelas viagens é um projeto partilhado com o meu marido, o Luiz Quaresma.

O que pensa que fará deste projeto um produto diferenciado?
Neste momento, e como potencial consumidora, não encontrei nada que juntasse no mesmo local aquilo que eu procuro. Muitas vezes passa apenas por saber como aproveitar ao máximo a vida, tendo obviamente em atenção algumas preferências de que não abdico, bem como algumas necessidades inerentes ao meu desenvolvimento.
Por exemplo, quando viajo, neste momento é obrigatório fazê-lo em segurança. Ao longo destes anos, já tive bastantes percalços e aprendi que ter um bom seguro faz toda a diferença. Se eu, quando tinha menos experiência, tivesse num único local informação sobre o que devo, posso ou quero ter quando viajo, já faria para mim toda a diferença, e certamente era uma coisa que saberia e aprenderia a valorizar.

 

Na Islândia perto da Lagoa Azul, muito quentinha dentro do meu casaco.

Quais são os seus objetivos para o crescimento do projeto e onde vê o After 50 num futuro próximo?
Espero que ao longo do tempo, e através das secções que estão no projeto, e que espero cresçam muito, seja possível que as pessoas que procuram encontrar informação, conhecimento e experiência num único local tenham aqui o seu espaço de consulta, de inspiração, de prazer. Também é nele que espero que partilhem com os outros as suas próprias experiências.
Partilhar é sem dúvida algo que, ao longo da vida, percebemos ser uma coisa essencial. Seja nos pequenos gestos, nos bens, nas ideias ou apenas em conselhos. Tenho tanto a aprender com quem já tem mais experiência do que eu (e não tem de ser necessariamente com pessoas com mais de 50, podem ser mais novas, apenas terão mais experiência) que procuro beneficiar do que elas possam transmitir.

O outro lado da vida depois dos 50 é tão bom como era antes. É apenas diferente!

Poderia sintetizar em três pequenas sugestões o que pensa ser mais importante para quem gostaria de começar um negócio depois dos 50?
– Seguirmos a nossa paixão.
– Fazermos apenas aquilo em que estivermos 100% seguros.
– “Take the nice things you have and learn how to make them genuinely competitive” Neste caso, para mim, foram as viagens e a minha experiência profissional de ter trabalhado com marcas.
– Keep it brutally simple.

Qual era a sua percepção dos seus after 50, quando tinha 30 anos em comparação com a realidade?
Um dos objetivos que sempre tive em mente foi o de aos 40/45 anos ter liberdade financeira para poder optar por aquilo que gostava mais de fazer. Confesso que não foi a idade que fez um reality check: “Já tens 50. Não percas tempo”. Foi por causa do falecimento da minha mãe, que era a minha musa, minha confidente, minha parceira, há cerca de 2 anos, que esta máxima me tocou ainda mais profundamente, e por isso achei que a partir desse momento não iria perder mais tempo.

É esse objetivo que procuro cumprir todos os dias. Nem sempre é possível, mas não desisto.

 

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here