Barra do Rio Negro – Manaus

Amazónia selvagem e cosmopolita

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Um apontamento da vida tribal numa aldeia indígena.

Esta viagem estava já nas nossas cabeças há algum tempo, mas as oportunidades, a conjugação dos astros, o destino ou… Tanto faz, por uma razão ou por outra, nunca tinha acontecido. Depois de umas quantas sessões de minisséries brasileiras sobre a Amazónia, de documentários da National Geographic a propósito dos ciclos da borracha e de uma reportagem da BBC sobre Manaus, percebemos que já estávamos cansados de ver o território e a cidade de Manaus na segunda pessoa da televisão e decidimos que era altura de fazermos mais uma vez as malas e partirmos em viagem até ao verde infinito dos trópicos amazónicos. Outra acha para a fogueira foi o facto de o Luiz, embora esteja em Portugal já desde 1976, ter nascido no Brasil e nunca ter tido a oportunidade de viajar para aquelas paragens.

Quando começámos as preparações para a viagem a Manaus, percebemos que o timing era perfeito, pois não só tínhamos milhas acumuladas nos cartões de crédito (programa TAP Victoria) suficientes para podermos ir em executiva como, por outro lado, esse seria o ano em que (infelizmente) a TAP iria deixar de ter voos diretos para Manaus. O Luiz organizou tudo de forma exemplar, como é hábito; desde a viagem em si aos programas no local, hotéis, restaurantes, tudo. Mais uma vez, a escolha do nosso hotel recaiu sobre um local perto de transportes, nada longe do centro, bairro seguro – fator muitíssimo importante, embora a cidade se tenha apresentado pacífica e acolhedora – e perto de serviços, restaurantes e animação.

A viagem foi tranquila e repousada. Viajar em executiva é sempre sinónimo de conforto e descanso garantido nestas viagens de mais de 10 horas. Sempre que puderem…

Uma vez instalados no Caeser Business Manaus, percebemos que os receios que nos tinham incutido sobre o caos do trânsito da cidade não eram assim tão justificados. O trânsito era intenso, sim, mas nada a que não estivéssemos habituados em Lisboa. No primeiro dia, como chegamos já tarde, aproveitámos para descansar e ganhar forças para as aventuras que já sabíamos que se iriam seguir.

Na imagem, o cais  onde apanhámos o barco que nos deu a conhecer o boto-cor-de-rosa.

 

Numa cidade como Manaus, no coração da Amazónia, não há como não fazer uma excursão de barco. Oito horas, no total, mas que oito horas maravilhosas.

Para começar bem, fomos diretos ao local do Amazonas onde existe a maior concentração de botos. Os botos são golfinhos de água doce e com uma cor absolutamente incrível. São cor-de-rosa. Ia apreensiva e já tinha dito ao Luiz que não iria para a água. No entanto, quando cheguei e vi aqueles animais tão mágicos, fui a primeira a saltar para dentro de água.

Foi uma experiência que ficará para sempre gravada na minha memória, aliás como todas as experiências que se seguiriam. A água, apesar de turva por causa dos sedimentos que o rio transporta, está na verdade muitíssimo limpa, facto que torna a experiência ainda mais estranha. É que, dentro de água, não há visibilidade que permita vermos os nossos próprios pés, mas, de repente, surgem aquelas criaturas aquáticas e aparentemente aladas, aos saltos por cima de nós e ainda por cima com aquela cor de fantasminha bom. Uma experiência a não falhar!

Vitórias Régias, plantas aquáticas de dimensões gigantescas e de uma beleza ímpar.
O deslumbrante Parque Ecológico Januari.
Um macaco-de-cheiro (Saimiri sciureus L.), também chamado boca-preta, jurupari ou jurupixuna.

Daí partimos, sempre de barco, e dirigimo-nos ao Parque Ecológico Januari, onde desembarcámos num passadiço de madeira que nos levou até ao local onde imperam as Vitórias Régias, plantas aquáticas de dimensões gigantescas e de uma beleza ímpar. Pelo caminho, fomos sempre acompanhados pelos pequenos Micos, macacos minúsculos, ladrões compulsivos de bananas.

Nestes percursos, como o barco é muito baixo em relação à linha de água, ficamos completamente expostos ao ambiente. A água está logo ali a poucos centímetros, e a densidade da floresta que vem cair na água é tal que nos sentimos verdadeiramente submersos na Natureza.

Seguimos para uma visita a uma aldeia indígena, onde assistimos a um espetáculo realizado pela sua tribo. Não esperem uma cerimónia tradicional, antes uma encenação para turistas. Ainda assim, muito interessante por levantar um pouco o véu sobre que será a realidade da vida tribal. Passámos também às iguarias locais, mas confesso que não provei. O Luiz sim: num ato de coragem, comeu formigas assadas. Formigas, mas do tamanho de uma falange, não como as nossas micro formigas de Portugal. “São crocantes, parecem pipocas.” Foram estas as palavras do Luiz, escusando-se depois a provar outras iguarias.

Dali seguimos para o que chamam o “encontro das águas”, que é a confluência do Rio Solimões, de água barrenta, com o Rio Negro, de água escura. A junção destes dois rios dá origem ao gigantesco Amazonas.

Perto desse local, tivemos a oportunidade de ir conhecer um projeto de aquacultura onde se cria o famoso pirarucús, conhecido como o bacalhau de água doce, isto porque também se seca e salga. É consumido em grandes doses na região, podendo ser cozinhado de inúmeras formas. Mais uma vez, o Luiz, com o seu espírito aventureiro, aceitou ir alimentar um deles, tendo travado uma intensa luta com um exemplar enorme, que acabou por roubar o isco e desaparecer.

 

Para acabar o nosso passeio de oito horas de barco pelo Amazonas, fomos visitar uma aldeia palafítica onde tudo, mas mesmo tudo, está construído em cima de incontáveis estacas; está ali uma autêntica aldeia, com escola, igreja, mercado, casas, …

Gostámos tanto do passeio que no dia seguinte decidimos alugar um barco com guia só para nós, o que também recomendamos vivamente. A uma hora de caminho pelas águas fica o Museu do Seringal Vila Paraíso, um museu vivo onde foi rodado o filme realizado por Leonel Vieira “A Selva”, com Diogo Morgado, a partir da obra de Ferreira de Castro. Aqui pudemos ver todo o processo da fabricação artesanal da borracha, desde a recolha da seiva até à preparação das enormes bolas de borracha pura.

Mais do que o local em si, que é lindíssimo, bem cuidado e com um projecto museológico digno de louvor, ficámos impressionados com a história dos seringueiros e as suas incríveis provações, durante as duas épocas de ouro da borracha amazónica. 

Esta visita não deve ser opcional. Se quer ter a sensação de viajar no tempo, terá forçosamente de ir a Vila Paraíso e sentir a vida naquela época.

De regresso a Manaus, visitámos o porto. Prolongou-se a sensação de paragem no tempo que já trazíamos da outra visita. O que sentimos foi que tudo o que estávamos a observar poderia ser igual ao que era há 100 anos. As únicas coisas que se alteraram foram os tipos de produtos e os motores dos barcos. Daí seguimos para o mercado, para um banho de vida quotidiana da cidade, onde pudemos ver, ouvir, cheirar e provar frutas de todos os tamanhos e feitios, com sabores que saíam fora daquilo a que as nossas papilas gustativas estão habituadas, mas tudo fresco e saboroso.

O final do dia foi mais uma agradável surpresa. Mesmo do outro lado do cruzamento do hotel, indicaram-nos uma praça que ficou como o nosso local de fim de dia: a Praça do Caranguejo. O ambiente da praça transporta-nos imediatamente para os das aldeias que víamos nas novelas brasileiras, com inúmeras barraquinhas de petiscos, bebidas, esplanadas, restaurantes e pequenas lojas. Nesta praça, come-se, bebe-se, vê-se futebol na televisão, saboreia-se uma “geladinha” e ouve-se boa música. Ficámos fãs da Praça do Caranguejo.

No quinto dia da nossa estadia, e como agendado, vieram-nos buscar – de barco, como não poderia deixar de ser – para nos podermos embrenhar verdadeiramente na selva. Uma lancha (na verdade, uma canoa, já que havia pouca água e o barco grande tinha calado a mais) transportou-nos até ao Amazon Ecopark Jungle Lodge.

Já instalados, as primeiras impressões foram: “Bom, isto é mesmo na Selva!” As condições não eram comparáveis às de um hotel convencional, mas a ideia era adaptarmo-nos e desfrutar da experiência.

 

No dia seguinte, fomos fazer o primeiro passeio e visitar o espaço gerido pela Fundação Floresta Viva. Uma reserva de macacos na qual vivem e se reproduzem várias espécies de macacos que se encontram em vias de extinção. Eu, que não aprecio muito estes primatas, mais uma vez me rendi à vibração da vida selvagem e também ao trabalho que esta Fundação faz. Muitos dos animais que vimos foram resgatados a redes de tráfico de animais que operam na zona.

 
Afinal, as temíveis piranhas nem o anzol morderam…

O segundo passeio foi já ao final da tarde, e fomos, só os dois, levados para o meio do rio para tentar ir à pesca da piranha, uma experiência sem grande sucesso, mas que valeu mais do que a pena, pois fomos presenteados com um dos mais magníficos pores do sol a que já tínhamos tido oportunidade de assistir. Imersos na floresta, no meio do rio, sem correr uma brisa, os sons de início de noite da floresta a despontarem – uma verdadeira sinfonia – uma paz imensa e um lavar de alma garantido.

Ainda nessa noite fomos fazer a “focagem dos jacarés”. Intenso, muito intenso! Íamos numa canoa de índios muito instável, munidos apenas de lanternas, numa noite escura como breu, por canais estreitos e com cipós pendurados das árvores a roçarem nas nossas cabeças.

E por último, jacarés, muitos jacarés. Adrenalínico e muito assustador. De todo desaconselhável a cardíacos, mas ainda assim uma experiência a ser vivida na primeira pessoa, não através de um ecrã.

No segundo dia na floresta fomos experimentá-la a pé, com um guia local que nos foi ensinando a olhar a selva. Tudo pelo que passávamos tinha uma função, uma utilização ou, em último caso, poder-nos-ia matar se não estivéssemos atentos. Uma lição de natureza e de vida.

 

O imponente Teatro Amazonas, também chamado Casa de Ópera de Manaus, foi inaugurado em 1896.
  

O último dia foi dedicado a um longo passeio a pé pela cidade, onde visitámos os seus espaços incontornáveis. A Praça de S. Sebastião e a sua importante igreja, o Palácio Provincial, que alberga quatro museus, o Palácio do Rio Negro, o relógio municipal e, como não poderia faltar, o Teatro Amazonas. A história deste teatro é fabulosa e merece a pena ser lida.

A vingança do Luiz, já que não pescou nenhuma piranha, foi servida em alumínio, com um saboroso tambaqui.

Nas proximidades do teatro, dirigimo-nos a um restaurante por todos recomendado, o Tambaqui de Banda. Almoçámos tarde e saboreámos um excelente peixe de rio com o mesmo nome do restaurante, tambaqui, muito bem grelhado e num ambiente tranquilo. Uma boa opção.

Esta viagem, é-me difícil resumi-la em duas ou três linhas. Para o Luiz e para mim, foi muito mais do que estávamos à espera, superou todas as nossas expetativas em vários sentidos. Desde logo, no aspeto humano, pois conhecemos pessoas incríveis que nos ensinaram muito sobre o território. Depois, por causa da vertente histórica, riquíssima. E, por último, a imponente Natureza.

Não perca tempo e vá. Vá a Manaus e embrenhe-se, mesmo que seja só nos primeiros metros, na selva na Amazónia. Garanto que virá diferente, como em todas as viagens que fazemos.

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